Adriana Penna*
Em 1997, quando Erykah Badu veio para o Brasil se apresentar no Free Jazz Festival, eu trabalhei no palco que ela tocou. Foi o ano que ela lançou o clássico CD Baduizm, que ouvi até furar.
Ela linda, grávida, uma fofa de turbante e jóias exóticas.
Treze anos depois, muita água rolou e tive a chance de, trabalhando em gravadoras e festivais, recepcionar e cuidar de artistas que admiro. De Cut Chemist a Eric Clapton, dos Chili Peppers a Derrick Carter, de Asin Dub a Alanis Morissette. De mergulho na praia a tardes em churrascaria, de comprar CDs de música brasileira a passear no parque, tive a chance de mostrar um pouco do Rio pra essa galera.
Mas há seis anos abri uma empresa de conteúdo e quase não tenho mais tempo de trabalhar como produtora ou tradutora em shows.
Por isso, quando encontrei uma amiga que estava trazendo a Erykah no final de semana seguinte, para o incrível festival Back to Black, me ofereci para cuidar dela novamente, só de onda.
Uma semana depois, lá estava eu no aeroporto internacional, às seis horas da manhã, aguardando um vôo que ia atrasar quatro horas. Pensei com meus botões: pra que inventei essa moda?
O sentimento de arrependimento desapareceu assim que vi sair da sala de embarque Erykah, sua mãe Kollen Wright, uma figura incrível, cantora, atriz e super estilosa (Erykah começou sua carreira cantando com ela), sua filha Mars, de um ano e oito meses, sua assistente pessoal e a babá.
A estadia no Rio foi curta e na sexta ela não saiu do hotel. No sábado, antes do show, demos um rolê de carro pela praia, com direito a ela cantando para ninar a filha, uma parada no restaurante Vegetariano Social Clube (ela amou a limonada clorofilada de lá) e fizemos compras numa feirinha hippie que tem na Av. Atlântica. Erykah comprou redes, colares, cristais, como uma autêntica turista.
A produção dela para o show estava incrível: um vestido rodado Louis Vuitton e uma ankle boot altísstima. Seus cabelos oxigenados num clima moicano e dois mega brincos dourados, de raio.
Antes do show, ela ficou quietinha no camarim, aqueceu a voz, e ficou junto com as backing vocals para papinhos e brincadeiras.
No palco, Erykah é uma rainha. Se garante de cantar no pedestal o show inteiro, viaja com os grooves de sua super banda, vai pra galera e dá sinais de que não quer sair do palco. O show durou quase duas horas e foi impecável. Música da melhor qualidade.
Pós show, ela atendeu os fotógrafos, fez o social com a galera do evento e chamou para dentro do seu camarim cerca de 30 fãs.
Sentou-se numa cadeira no meio da galera, pediu um chá e, de calça de moleton e camiseta furada, ficou duas (!) horas conversando com eles, respondendo perguntas, fazendo outras. Eu olhava pra ela e perguntava, quer ir embora? E ela: não. Quero conhecer quem curte minha música no Brasil.
Saímos da Leopoldina três horas da manhã e nove da manhã já estávamos todos de pé, a caminho do aeroporto. Na hora da despedida, ela tirou um cristal de quartzo rosa de dentro do bolso, beijou a pedra e me disse, muito obrigada por ajudar a fazer a minha estadia no Rio tão feliz, finalizando com um abraço apertado.
De nada Erykah. Foi um prazer.

Erykah checa as fotos com o fotógrafo João Wainer, bate papo com Carlinhos Brown, meu momento tiete e com os fãs depois do show no camarim.

* Adriana Penna é uma das sócias da Predileta – produtora de comunicação que atua na criação de conteúdo, assessoria de marketing, curadoria artística, pesquisa de novas tendências e produção de eventos.
No canal Participação Especial cada post é escrito por um convidado. Os assuntos são os mais variados – de ecologia a cinema, de comportamento a ciência, de arquitetura a fotografia. Se você quiser participar, mande um e-mail para minas@minasdeouro.com.br, e o seu post também poderá ser escolhido!