por dennison ramalho
esses dias eu estava lendo “a jornada do escritor”, do christopher vogler – um livro no nível mobral pra quem pensa em ser roteirista. coincidentemente, o assunto do capítulo me inspirou a escolher o meu assuntão da semana. vogler falava do arquétipo do mentor, fundamental para a evolução de muitas histórias e mitos. como eu sei mais de cinema do que dos clássicos, cito alguns, de filmes de macho: mick, o treinador do rocky balboa; obi-wan kenobi e yoda, em guerra nas estrelas, o sr. myiagi, do karate kid, e por aí vai…
há filmes que giram em torno da figura do mentor. mas a maioria deles inspirava os seus pupilos à nobreza, ao galanteio e à erudição: tipo “sociedade dos poetas mortos”, “adeus mr. chips”, “a força do destino”, “perfume de mulher”, e até ”entrevista com o vampiro” – todos fábricas de heróis que serão bons gastadores em free-shops de aeroporto.

… e aí, finalmente, eu vejo o clint fazer não só um papel muito diferente do que estou acostumado a vê-lo fazer, mas também um filme de mentor mais mal-educado, onde a honra e a maturidade estão associadas à sobrevivência. gran torino fala de um mentor ensinando toda uma geração que herdou uma américa decadente a lidar com a adversidade – desde o jovem padre, recém saído do seminário, passando pelos bandidinhos locais e focando em tao, um rapaz asiático feioso, tímido e que está sendo fortemente aliciado e brutalizado pelas gangues da área.

em “gran torino” revi um clint vigoroso, revisitando um pouco a veia ‘dirty harry’, de seus filmes do passado. ele é um mentor doído, rabugento, cheio de cicatrizes de guerra e pai de uma família disfuncional. não é um mestre gracioso e paciente. do contrário, é pão-duro, grosso, desbocado e bom de briga. gosta mais de carros do que de gente (e cuida de seu ford gran torino melhor que dos filhos e netos)… e não gasta mais do que 5 dólares num corte de cabelo! é um mentor ensinando personagens-chaves a cuidarem da vizinhança que em breve ele lhes legará. e sua missão é passar o bastão da galhardia e da nobreza, sim, mas na malandragem e na ralação.

um homem diz muito sobre si mesmo com seu aperto de mão!
o filme tem um belo ar de testamento – é foda de bom ver o clint, do alto dos seus 78 anos, ensinando (e aprendendo) com personagens mais jovens, numa história de humor fino, sarcasmo e coragem. não percam!



3 de maio de 2009, às 13:27
dennison, sabe que eu tive outra sensação, a de que clint eastwood está fazendo o papel dele mesmo só que mais velho, como um testamento: “estou saindo mas deixo uma mensagem para vocês, herdeiros desta américa falida e miscigenada,
and fuck you all.”
re