ana figueiredo é minha tia, amiga do peito. dançarina e professora de dança formada no idii - isadora duncan international institute – de ny. trabalha com o universo dos mitos há 20 anos, e também é colaboradora da joseph campbell foundation aqui no brasil.
a gente ficou muito triste e emocionada com a morte da pina bausch. pedi pra ana escrever umas palavras para o nosso blog, sobre a dançarina. mas ela se empolgou e nos presenteia com um lindo texto, cheio de informações e feito com muito carinho.
pina bausch morreu. almodovar chora e felini a recebe no céu
por ana figueiredo
almodóvar abre seu filme “fale com ela” com “café müller” de 1978, onde pina bausch aparecia dançando a coreografia que a consagra junto ao grande público.”mazurca fogo” fecha o filme dando um banho de otimismo e fé no amor, no erotismo e o romance.
convidada por fellini, pina participa como atriz de “e la nave va”. quem viu não esquece. ela é a princesa cega, uma das convidadas do cruzeiro, um rito póstumo, onde as cinzas de uma diva do mundo da ópera serão jogadas ao mar.
diretora do tanztheater wuppertal na alemanha, grande mulher, grande alma, coreógrafa e criadora, pina rompeu as fronteiras que separavam dança, teatro, cinema, sonho e realidade.
segundo helena katz, crítica de dança, “pina bausch inaugurou uma dança que não existia, as mudanças que trouxe varreram os palcos e a arte a golpes de originalidade”.
em suas criações começava sempre colocando perguntas aos seus bailarinos, questões nada fáceis, às vezes sem respostas, tentativas de se aproximar do que pensam as pessoas. sua preocupação era o humano, “não me interesso em como as pessoas se movem, mas o que as move.”
o olhar de pina bausch
pina bausch escapa a definições. é preciso estar atento para ver cada detalhe no palco, cada objeto em cena, cada bailarino e seus aspectos aparentemente tão pessoais; ousadias e idiossincrasias tornadas coletivas, tornadas universais.
com o cineasta pedro almodóvar, pina teve a maestria de olhar o outro, olhar o estranho, ou então, dar a volta e ser este olhar estrangeiro a enxergar as pérolas, as pinceladas e maneirices da diversidade humana. a qualidade de olhar sob um ponto de vista específico e enxergar toda a alma humana. pina queria falar sobre a dor humana, sobre as questões centrais da vida através do corpo, através da beleza.
minha experiência com a dança de pina bausch
a primeira vez que assisti uma coreografia de pina Bausch foi em 1997 no teatro municipal do rio de janeiro, com “cravos” obra de imenso impacto visual. na primeira cena oito mil cravos em pé cobrem todo o palco enquanto cães pastores alemães, presos a coleiras por seguranças fortões, vão circulando, derrubando os cravos um a um. uma obra sobre a tirania política, mas também a tirania que indivíduos impõem uns aos outros. platéia e bailarinos, palco e objetos de cena, fala, canto, música e mímica – tudo em interação! cada cena ia sendo lapidada e depois dilapidada, para tornar a aparecer em nova lapidação.

em 2007 estive no teatro alfa com meus alunos para assistir “água”, inspirada no brasil. no final saímos por uma escada lateral e fomos parar ao lado do palco onde os bailarinos ainda estavam. surpresos, descemos mais um piso e fomos dar no andar dos camarins. de repente estávamos diante da pina naquele corredor vazio. ela nos olha, ninguém consegue dizer nada. saímos. já lá fora somos informados que pina bausch nos convida a voltar para conversar e conhecer a companhia! que dizer para a deusa viva da arte?

o legado para a arte da dança e do teatro
segundo monique gardenberg, cineasta, cenógrafa e produtora: “perdemos a maior artista mulher de todos os tempos. pina revolucionou a história da dança e do teatro ao mesmo tempo. pina era uma criadora total e suas obras uma explosão de vida no palco. desejo que a cidade de wuppertal mantenha viva esta grande artista por intermédio de sua companhia e de suas obras arrebatadora. para todo o sempre”.




3 de julho de 2009, às 00:03
sniff
3 de julho de 2009, às 01:24
todos choram
e a ana é a pessoa certa pra fazer esse choro virar um sorriso.
beijo!
3 de julho de 2009, às 10:42
que texto lindo!!!! fiquei mega emocionado…
e muito inspirado… quarta tenho a apresentação da minha banca de mestrado na usp e uma frase vai ecoar em mim: “não me interesso em como as pessoas se movem, mas o que as move”
bjbj
3 de julho de 2009, às 19:06
a nana é a melhor pessoa mesmo pra escrever sobre a pina. me emocionei tambem.
bjs queridos
4 de julho de 2009, às 15:57
5 de julho de 2009, às 21:31
obrigada às duas Anas pelo prazer desse texto.
beijinhos
6 de julho de 2009, às 01:15
almodovar chora, fellini a recebe no céu e a gente se encanta com esse texto ! bjs às Anas
6 de julho de 2009, às 11:52
obrigada, Ana. Pelo texto e as imagens tão comoventes. Pina vai fazer falta. um beijo, Déborah
6 de julho de 2009, às 14:22
nana super arrasando!!!!!
super tks mais uma vez.
bjs amada