
vou fugir completamente do meu universo infantil, mas é que nos últimos dias, tenho me dedicado a preparar os bolos para a festa de rosh hashaná na casa da minha avó. não sou muito religiosa, minto, não acredito em nada mesmo, mas faço questão de preparar os bolos que são servidos de sobremesa. não sei direito porque, talvez seja uma maneira de lembrar da minha avó sã (ela tem alzheimer e hoje em dia, vive no mundo da lua), talvez seja a tradição que se enraiza em mim, mesmo eu querendo negar. não importa muito, todo ano eu reclamo, digo que não dá para fazer e no final das contas lá vou eu, preparar 4 bolos diferentes, sempre os mesmos todos os anos, que quem janta na casa dela está careca de saber: papoula, amêndoa, nozes e no rosh hashaná, mel.
fui mudando algumas coisas com o passar do tempo, acho que é natural. a minha vó sempre foi uma mulher prática, tanto que a maioria das receitas dela são do tipo, misture tudo e depois adicione as claras em neve. em seu caderninho de receitas, algumas são só uma lista de ingredientes e pronto. às vezes é um trabalho de detetive, tentar adivinhar o que fazer com tal lista, a ordem dos ingredientes e coisas do gênero. e nessa busca vale tudo, ligar para as amigas dela, ligar para a filha da antiga cozinheira, procurar em livros para tentar descobrir alguma similariedade com uma receita que tem o modo de fazer.
a dona wala, a minha avó, sempre queria estar up-to-date em questões de saúde (como toda boa leitora da revista seleções do reader’s digest) então, com o tempo, foi substituindo ingredientes que ela achava muito nocivos à saude, por exemplo o schmaltz (gordura de galinha). teve uma época que ela encasquetou em fazer a sopa de galinha, aquela com matzo-balls, só com peito de frango . “mas vó!” eu reclamava, e ela “a gente põe umas asinhas de frango, ninguém vai perceber!”. e lá ia ela, substituindo manteiga por margarina, galinha por peito de frango e o diabo a quatro. teve uma época em que eu contrabandeava uma galinha para a sopa, com a cumplicidade da wanda, a cozinheira. depois que ela saía da cozinha e ia tirar uma soneca, a gente tirava a galinha do fundo da geladeira, atrás do salsão e colocava na panela. acho que ela percebia, mas fazia que não.
hoje, o nosso jantar é uma bela desculpa para reunir a família e os amigos, e comer um monte de coisas gostosas que ela costumava preparar. uma das coisas mais engraçadas, é que ela vivia querendo variar ( o nosso jantar de rosh hashaná é absolutamente igual ao jantar de pessach, tirando o bolo de mel e a ralá) e o povo retrucava: “mas dona wala, a gente espera meio ano para comer essa comida, não dá para ficar variando!” e ela ficava se sentindo!
tenho o maior orgulho de ser neta da dona wala, espero poder continuar a fazer as coisas boas que ela me ensinou na cozinha, e na vida. que esse ano seja feliz e doce para todos.
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receita de bolo de mel da dona wala (é preciso uma assadeira bem grande, porque esse bolo é gigante, quase que pra levar pra firma)
ingredientes:
- 12 ovos
- 1 kg de farinha de trigo
- 4 copos* de açúcar
- 2 copos* de óleo
- 2 copos* de mel
- 2 colheres de sopa de fermento em pó
- 1 colher de sopa de bicarbonato de sódio
- nozes picadas (à gosto do freguês)
- canela em pó
- essência de baunilha (quem quiser e puder usar a fava, fica mais gostoso)
- uvas passas brancas maceradas num álcool qualquer (whisky, rum, conhaque)
- 1 copo* de café bem forte
- 1 maçã ralada
*copo de 250 ml, o de requeijão
modo de fazer:
bata a açúcar com as gemas e vá misturando todos os outros ingredientes, por último acrescente as claras batidas em neve. ao incorporar as claras na massa cuide para não misturar com muita força, isso acaba com as bolhas de ar da clara em neves. coloque a massa numa forma grande untada e deixe para assar no forno na temperatura média, por volta de 200º C. não sei dizer quanto tempo o bolo fica no forno, mas, fure o meio com um palitinho (eu gosto de usar um hashi desses que vem do delivery chinês ou japa, é mais comprido), quando ele sair seco, é que o bolo está pronto.



18 de setembro de 2009, às 21:14
oi clarice, aqui e a renata, sobrinha da bia e flavio. adorei o teu texto, muito legal e e um pouco a historia de todos nos. bom jantar, shana tova pra vc e um beijinho para o seu filho!
re
19 de setembro de 2009, às 00:20
shana tová!!!
19 de setembro de 2009, às 00:53
me emocionei com o seu post! nada como avós… shana tová e viva a dona wala.
19 de setembro de 2009, às 17:09
cla,
acho que tem muito a ver o post com universo infatil sim, essas suas memorias gastronomicas da avó , assim como os biscoitinhos da mae do ro, já fazem parte do mundinho do benjamim.
vc ter assumido o forno e a producao dos bolos garante ao benja tradicoes e memorias incriveis, e quem sabe um dia seus netos sejam os responsaveis pela producao e vc a avó homenageada.
shana tova!
21 de setembro de 2009, às 15:29
clazinha, adorei muito… vou fazer.