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Clarice Reichstul
23 de fevereiro de 2010, às 00:02

leituras de gravidez

por Clarice Reichstul

durante a gravidez, meu obstetra me proibiu de ler qualquer coisa sobre o assunto. ele disse, com razão, que qualquer coisa que eu lesse eu iria acabar sentindo, e que o desenvolvimento do feto é diferente para cada um. óbvio ululante, né? mas não para grávidas.

quase consegui seguir as recomendações dele, não comprei nenhum livro (o que é algo de inimaginável, é só perguntar para o meu marido). ganhamos um, que de tão besta, nem me dignei a sentir todos os sintomas descritos. mesmo assim, assinei aquele serviço dos sites para bebês, “seu bebê semana a semana” ou algo do gênero. ao se cadastrar, você coloca a data prevista do parto e eles calculam a semana da gravidez em que você está, e assim, mandam um email com as mudanças do feto naquela semana. o que a princípio é super legal, você vai imaginando o pequenininho se formando e tal, só que chega uma hora em que o tal do email diz: “essa semana você deve sentir os primeiros chutes de seu bebê” e eu nada.  depois, passa mais uma semana e o email diz; “agora os chutes são mais frequentes, você deve sentir sempre” e aqui, nada também! afem….

dito e feito, comecei a noiar. e comecei a buscar coisas sobre a gravidez na internet feito louca,  e comecei a sentir todo e qualquer sintoma raro e bizarro descrito em qualquer site chumbrega. e, porque não? comecei a ficar preocupada, afinal, os tais sintomas que eu deveria sentir, perceber, eu não percebia!!!

e o pior de tudo, é que eu nem tinha coragem de contar para o meu médico, que ia ralhar comigo e dizer “eu te disse!”.

nessas, eu fiquei sem ler quase nada. acabei lendo livros para depois, para a hora em que o nenê nasce mesmo. ganhei um tradissionalíssimo livro do dr. lamare, e olha, apesar de todo o meu preconceito, o livro tem dicas bem razoáveis. só não pode ficar achando que a descrição de cada mês é perfeita e tal, vale o mesmo esquema acima, cada um no seu ritmo e é isso aí!

na mesma linha ganhei da minha mãe o livro do dr. spock, o dr lamare das américas.  também antiguinho e legal, tem um capítulo grande sobre birras e manhas, é um jeito antigo de educar crianças, mas acho que válido, vai contra o foforruchismo endêmico das nossas vidas.  é, a minha mãe foi a minha maior fonte de livros, talvez porque ela tenha feito observação de bebês em seu mestrado, talvez porque ela é uma leitora compulsiva ou mesmo porque ela é psicanalista, sei lá. fato é que ela me passou também um livro super legal, chamado babyhood de uma fulana chamada penelope leach. esse livro saiu em 1974 e é um compêndio do que  realmente se sabia sobre bebês via estudos científicos até então. esse é o meu favorito porque não tem achismos, que é a coisa que a gente mais se depara nessa fase da vida.

não é  a opinião da autora que vale mais nem a de ninguém, são fatos comprovados que ilustram o desenvolvimento das crianças e nos dão um pouco de luz sobre esses gnominhos que a gente cria. algumas situações podem parecer fora de propósito, assim como algumas práticas descritas no livro, que tem quase quarenta anos de vida, mas ainda assim, é uma fonte confiável sobre o desenvolvimento infantil nos dois primeiros anos de vida.

ainda nessa seara um pouco assim, árida, tem o bebê e a coordenação motora de marie-adelaide béziers e yva hunsinger. árida porque é um livro para fisioterapeutas e profissionais que lidam com o corpo e seu desenvolvimento motor, então, para nós simples mortais, algumas coisas ficam um pouco chatas. mas em compensação, ai, são tantas coisas legais de se ler sobre como segurar melhor o seu bebê, como dar banho (para mim foi ótimo, eu morria de medo de dar banho), de como acalmá-lo com uma posição x ou y, que vale super a pena.  esse tem em português e vale suuuuuper à pena. é legal de entender porque não é para usar andador, porque a criança tem que engatinhar antes de andar e assim por diante.

por último, pra não ficar uma mega-master-chata da leitura filhal tem a série da clínica tavistok, que começa com o livro compreendendo seu bebê. é leitura fácil e agradável, que também, sem ficar dando “dicas” vai mostrando casos do relacionamento mãe-bebê, pai-bebê, família-bebê e ilustrando as angústias e maravilhas de cada fase da vida.

ó, não estou dizendo que teeeeeem que ler esses livros, é só que no meu caso, ler ajudou a enteder coisas simples, me preocupar menos. alivou bem a ansiedade, sabe? e aliviar a ansiedade já é uma baita de uma ajuda nesses primeiros anos.

Dr. Benjamin Spock

Dr. Benjamin Spock

“leituras de gravidez” tem 6 comentários.

  1. Renata Malero

    Oi Clarice,

    Costumo chamar de “loucas da internet” essa mulherada que organiza foruns enlouquecedores para assuntos ligados a gestacao… Uma baita fonte de angustia…
    Li alguns livros que estao na moda, as encantadoras da vida… mas todos geravam uma ansiedade desnecessaria…
    Assim como sua mae, sou psicanalista e um grande amigo durante minha gravidez que esta chegando ao fim foram alguns livros do psicanalista D.Winnicott.
    Eu recomendo sobretudo o livro “a crianca e o seu mundo”, é incrivel e imperdivel.
    Mes que vem a Rubia nasce. Eh como o raiar do sol para mim.
    beijo

  2. clarice reichstul

    OI Renata!

    pois é, ficou faltando o Winnicott na minha lista. é que ela ficou grande demais e eu tenho um carinho especial por ele, achei que valia um post só sobre ele lá pra frente. A minha mãe é super fã dele, e depois de ler “Os Bebês e suas Mães” fiquei fã também. Não sei se você conhece o Leonardo Posternak, ele é o pediatra do meu filho, o Benjamim. A gente brinca que ele é o nosso Winnicott. Vou ler “A Criança e o Seu Mundo”, fiquei bem curiosa!

    você tem super razão quanto às “loucas da internet”, é um inferno mesmo. Eu acho que faz parte dessa lógica perversa que prega ultra-sonografias mensais em 3d, cesáreas pré-agendadas, meninas de rosa e meninos de azul e crianças vestidas de adulto. um horror horroroso, que a gente tem que combater de algum jeito, senão estaremos à caminho da monguice absoluta (igual aquele filme, “idiocracy”).

    Boa sorte no nascimento da Rubia, espero que tudo corra tranquilo. um beijo!

  3. greice

    Oi, Clarice,
    Adorei esse post pq desde a gravidez fiquei indignada com a chuva de livros sobre como o seu bebê TEM de ser. Tb contra o meu obstetra, li alguns e fiquei de cabelo em pé. A tal encantadora tentou me convencer no livro dela q meu bebê era “o oposto do anjo”(ou seja…) Bom, minha indicação é o incrível livro do André Trindade, Gestos de Cuidado, Gestos de Amor, que me ajudou a entender um pouco mais do João sem rotulá-lo. Beijos!

  4. clarice reichstul

    Grei,

    o livro do André Trindade é principalmente baseado no da bèzier, o bebê e a coordenação motora, tá tudo lá. mas o dele é mais fácil de ler e as fotos são beeeeem mais explicativas, é mais fácil para leigos em geral. pois é, detesto esses rótulos maletas que ficam dizendo que a gente tem que ser assim ou assado. beijos

  5. Malu

    Oi Clarice!

    Achei estranho o seu obstetra recomendar que você não lesse nada. Eu entendo que a gente fica ansiosa lendo sobre as complicações da gravidez e do feto. Eu mesma ficava megaansiosa.

    Mas acho a leitura fundamental para o parto, para a amamentação e para os primeiros dias com o baby.

    Eu não sei como foi o seu parto, mas um dos motivos de muitas mulheres aí no Brasil quererem mesmo uma cesariana é o medo do parto. Aquela fantasia de que o parto é uma coisa medieval, em que a mulher fica sofrendo, que pode acabar em morte etc. etc.. Eu conheço várias pessoas aí no Brasil, entre minha mãe, cunhada, primas e amigas, que queriam “tentar o parto normal”, mas não leram nada sobre o assunto e terminaram na faca, com os médicos dando as desculpas mais esfarrapadas possíveis. Mesma coisa com amamentação. “O peito cai”, “não tenho leite suficiente” e outras coisas que não passam de mitos e que seriam sanadas com uma boa leitura.

    Anwyay, minha bíblia na gravidez foi o divertido “Rough Guide to Pregnancy”, em que a própria autora tira um barato de livros patronizing e respeita a leitura séria e fundamentada. Ela também fez o “Rough Guide to Babies and Toddlers”.

    Bjs e sorry pelo megacomentário

    Malu

  6. clarice reichstul

    OI Malu!

    é bom mega comentário, eu mesma sou das que faz uns desses gigantes. Talvez meu caso seja um pouco atípico, meu obstetra, é um cara partidário do parto natural, humanizado, que trabalha de um jeito muito legal: a gravidez e o parto são acompanhados por uma doula, que vai contando um pouco sobre como é, vai fazendo exercícios de respiração, enfim, é um processo, como a própria gravidez. A questão do Daniel, o médico, é que, quando a gente fica se entupindo de livros, esquece de sentir o que é estar grávida, esquece que cada uma tem a sua própria experiência e que, a gravidez é algo instintivo, faz parte da nossa natureza. O que parece óbvio escrevendo aqui agora, mas na hora do seu primeiro filho, você bem sabe como é, a gente fica insegura, ansiosa, acreditando em qualquer bobagem que alguém que a gente acredita que tem mais experiência que a gente diz. E, poxa, a gravidez não é doença, não é anomalia, faz parte da vida.

    Uma coisa que ele me disse, desde o começo, que foi muito legal, é que o papel do médico, num parto sem problemas, é de apenas aparar a criança. É óbvio que existem complicações de parto, é óbvio que existem problemas, mas parece que hoje a excessão virou regra. Quando se fala em gravidez, primeiro se fala em problemas e perigos, o parto normal vira uma “opção para corajosas”, enfim, cho que me perdi um pouco aqui. Mas, uma coisa que ele,quis evitar e que nesse ponto eu concordo muito com ele é em transformar uma experiência absolutamente instintiva e sensorial em algo cerebral. Uma das coisas que me enche um pouco nas mães mais militantes do parto vaginal é essa coisa de ler e ler e ler, poxa, gravidez não é tese de mestrado, cada um vai ter a sua e putz, o pediatra do Benjamim fala uma coisa complementar a isso que é “parto normal pode ser vaginal ou cesarea, depende do parto, depende da mãe. Essencialmente, é quando o bebê sai na hora que tem que sair, nem antes nem depois”. Acho isso sensato. Tenho uma amiga que em seu primeiro filho teve um trabalho de parto longuíssimo, com mecônio e com um médico insistindo num parto vaginal, que talvez naquele momento, estivesse colocando mãe e bebê numa situação mais arriscada do que se tivesse optado por uma cesarea. Ao mesmo tempo, também acho um horror essa coisa de marcar data e hora para o parto sem consultar o feto, que falta de educação!

    Desculpe a brincadeira de mau gosto, mas a real é que não sou xiita de nenhum dos lados, talvez xiita do bom senso. Da mesma maneira que é um horror ouvir mulheres falando do “peito que cai” com a amamentação, também é muito terrível ver uma mãe que não pode amamentar por razões físicas e reais ser repreendida por não ter dado o peito a seu filho. O saco é que em qualquer discussão sobre o assunto, a coisa sempre se polariza e todo mundo esquece que a maternidade relativamente sã exige, mais do que qualquer coisa, jogo de cintura. Ninguém nunca acerta, a gente sempre erra para mais ou para menos.

    Olha, para você ter uma idéia: a amamentação para mim foi super dolorosa. Veio obstetra ver meu peito, pediatra, daquelas fulanas especialistas em amamentação, que ajudam a mãe e o bebê a se encontrar, o diabo a quatro. Não adiantou nada, a sensibilidade da minha pele fazia com que cada mamada fosse um martírio. Lanolina, banho de sol, mamão, tentei de tudo e a real, é que eu tenho a pele muito fina e não há cristo no mundo que faça isso mudar. Cada vez que eu conversava com outras lactantes eu me sentia uma mega fracassada, todas se vangloriavam da sua leiterice, que jorrava leite pra cá e pra lá, que elas doavam, que isso, que aquilo, e eu lá, com o peito doendo e vendo o Benjamim mamar e continuar com fome.

    Afem, escrevi uma tese aqui também, ahahahahahahaha! ó, mas sou super à favor das leituras sobre os primeiros dia, são uma grande ajuda. Aí em Londres tem o Instituto Tavistok, que dá uma super ajuda para pais e mães de primeira viagem. Ai, agora me desculpa pela mega resposta, ahahahahaha!

    beijos,

    Clarice

Clarice Reichstul
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