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Sandra Soares
7 de abril de 2010, às 12:04

sobre doudous

por Sandra Soares

doudou é o nome francês para aquilo que a psicanálise chama de objeto transacional. um doudou ou objeto transacional é aquele paninho, travesseirinho ou brinquedo com o qual a criança estabelece uma relação de afeto e do qual tem dificuldade de se separar (lembra do personagem linus, do snoopy, que carregava um cobertor para todo lado?). para os pequenos, o doudou é como uma mãe portátil,  algo que lhes dá segurança e o faz se sentir em casa (não é à toa que o doudou conquista a criançada naquela fase em que a mãe começa a se afastar um pouco do bebê, entre os 4 meses e 1 ano de vida dele). na frança, os doudous são tão presentes na vida familiar que há empresas dedicadas somente à fabricação deles. uma das mais famosas é a doudou et compagnie, que fez o três mimos aí de baixo, ó:

ursos

a doudou et compagnie oferece até mesmo um serviço de busca de doudous que deixaram de ser fabricados. isso porque, muitas vezes, uma criança possui ao longo da infância várias encarnações de um mesmo brinquedo – quando ele fica podre de tão velho, é preciso trocá-lo, e isso tem de ser feito por um modelo exatamente igual, do contrário vai rolar choradeira. por isso muitas mães compram de cara várias unidades de um mesmo item ou recorrem ao serviço de busca da fábrica para rastrear os estoques das lojas. o que eu ainda não entendi é o motivo dos doudous serem tão presentes na cultura francesa e, na nossa, bem menos. se alguém tiver uma teoria, por favor, me explique! a minha é a de que, por lá, as mães portáteis são mais necessárias, porque os bebês geralmente vão para creches quando a mãe volta a trabalhar ou dividem uma babá coletiva (em vez de contratarem uma funcionária exclusiva, os casais deixam os filhos na casa de mulheres que recebem um grupo de crianças). será que isso tem a ver?

“sobre doudous” tem 11 comentários.

  1. clarice

    oi sandra,

    acho que como sempre, existe uma percepção de infância e dos objetos, ritos e passagens relacionadas a elas mais presente, mais viva. Acho que em alguns momentos, eles dão mais importância à ela do que nós, brasileiros. Repara: além dos doudous, tem aquela girafinha, de borracha natural, que todo bebê ganha e mais uma porção de outras coisas. Aqui, ainda olhamos as crianças como mini-adultos, repara, a concepção de criança elegante, chic, geralmente cai para um figurino mais adulto, tanto nos meninos como nas meninas, fonseca para eles (parecem anões) e xuxa para elas (desde cedo exercitando a sedução rosa, o charme erotizado) ai, sei lá, parece que a gente vai treinando os pequenos desde cedo a encarnarem esses papeis sociais tão burros, do homem feito provedor e da mulherzinha sensual e submissa.

    é triste, porque, de tempos em tempos todo mundo reclama que as crianças estão entrando na vida adulta cada vez mais cedo, seja na vida sexual, como no mercado de trabalho (ilegal, é bom dizer, mas um reflexo de nossa extrema desigualdade social). Exigimos das crianças comportamento adulto e nos livramos de nosso papel de adultos que devem criar, educar. Ai, nossa, já escrevi um post aqui, nem sei direito como terminar, ahahahaha!

    Mas resumindo é: já que criamos uns mini-adultos, é óbvio que não criamos/incentivamos/identificamos coisas que realmente são ligadas à infância. A gente tem sempre muita pressa. Repara, todos os comentários sobre crianças e bebês são do gênero: “como ela é grande! parece um homenzinho! já é uma mocinha! que rapagão”, sério, parece que estão falando de um adolescente, não de um bebê/criança pequena.

    um beijo,

    clarice

  2. sandra soares

    Clarice!!!

    Super concordo com você. E, como você, sou mamãe de primeira viagem (quase, porque o bebê ainda está crescendo na barriga).

    Concordo que as crianças estão entrando na vida adulta mais cedo, mas também concordo com o oposto disso. Se a afirmativa vale para questões de sexualidade, por exemplo, não vale para questões de independência (e os adultescentes que nunca querem mais sair da casa dos pais?!).

    De qualquer forma, acho sim que ambas as coisas podem ter a ver sim com a própria falta de “adulteza” dos pais…

    Obrigada por seu comentário. Adorei pensar mais sobre tudo isso.

    Bjs!

  3. clarice reichstul

    pois é. isso é que é o mais maluco, ao mesmo tempo em que se suprime a infância no período em que ela deveria acontecer, ou pelo menos se coage a idéia de infância e pronto. parece que essa adultescência é um grito de revolta a isso, será?
    não, revolta nesse caso seria muito inteligente e construido, acho que no final das contas, são todos reflexos e resultados desse jeito maluco, consumista, imediatista e imaturo em que vivemos.

    repara como a gente fica apressando tudo: parto com data marcada, mini-adultos anões, excesso de atividades extra-curriculares, muitos compromissos, aposto que todo mundo ficou perguntando para você no começo da gestação se era menino ou menina. depois, se vocês já decidiram o nome da crianca, depois é a escola, faculdade, carreira, um horror!

    beijo

  4. Marcella Delcourt

    Eu adoro o conceito de Doudou. Acho tão fofo!
    Quando meu filho Louis nasceu, comprei alguns doudous bacanas na França (A loja Du Pareil au Même tem uns lindos) para ele escolher e no fim, acabou ficando com uns cobertorzinhos de soft velhos (e que não larga até hoje)…

    O que eu acho divertido é que esse conceito é tão presente na cultura francesa que existe um movimento (sério) para estimular as mães a etiquetarem os doudous e para estimular as pessoas que encontrarem doudous perdidos a devolverem para os donos, devido aos danos psicológicos que a perda pode causar à criança…

    Só sei que cuido bem dos cobertozinhos para nem correr o risco!

  5. Marcella Delcourt

    cobertorzinhos

  6. sandra soares

    Marcella, eu não sabia desse movimento, que legal! Seu pequeno é “mezzo” francês? Adoro o nome Louis!

    Clarice, atualmente estou na fase de me perguntarem o nome e é mesmo impressionante: não tem um dia que o assunto não entre em debate…

  7. Marcella Delcourt

    Oi Sandra,
    Meu pequeno é mezzo francês, sim. Importei o pai para o Brasil…
    O seu (petit garçon?) também será, pelo jeito.
    Mais uma tradição francesa: só pode contar o nome depois que o bebê nascer! Eu só descobri isso depois da superbronca que eu tomei por ter contado o nome (aos 2 meses de gravidez) para uma amiga…
    Bonne Chance, alors!

  8. Sandra

    Marcella, o meu é petit garçon também. Ainda não temos o nome e quando tivermos guardarei segredo, seguindo a tradição (não sabia dela, obrigada por me contar… Gostei do conceito! rs). Bises!

  9. Malu

    Sandra e Marcella (e Clarice, que já me atura há uns tempos):

    Também sou mãe de um petit français de 2 aninhos. Vivemos em Londres, eu, o filhote e o pai, um cientista/cozinheiro/músico de La Ciotat, perto de Marselha.
    Nossa, nem me falem das tradições e superstições francesas!! Tive que guardar segredo sobre a gravidez até os 3 meses e não ganhei nenhum presente da família francesa até os 6 meses da gestação, pois a surperstição é não comprar NADA para o bebê até lá.
    E também tive que aturar um pouquinho de pressão para fazer amniocentese (segundo minha sogra, obrigatória na França) e sofrer com os franceses falando algumas bobagens contra a amamentação (infelizmente as francesas são as que menos amamentam na União Europeia, muito por preconceito e por falta de apoio).
    Mas a maioria das “francesices” são deliciosas! Sobre os doudous, por exemplo, sabiam que é tradição uma criança mais velha escolher um dos seus para passar a um novo bebê recém-chegado?
    Isso sem falar nas musiquinhas, nas historinhas, nas brincadeiras típicas, nas roupinhas Petit-Bateau…
    Bom saber desta nova “editoria” do Minas.

    Malu

  10. sandra soares

    Malu, que delícia o seu comentário! Merci! Não topa ser minha “informante” aqui na editoria não? hehehehe Me conta: como se chama o seu petit français? Bisous

  11. Malu

    Oi, Sandra!
    O nome do meu filhote é Vicente. Meu marido nasceu e sempre viveu na França, mas o pai é espanhol e a mãe, francesa/espanhola. Então nos decidimos por um nome que funcionasse em português e espanhol.
    Pode contar comigo para qualquer dúvida ou ideia. Mas eu quero mesmo é saber o segredo para conseguir “importar” o marido pro Brasil… Tá difícil convencer o meu. Hahaha.
    Beijos


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