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Clarice Reichstul
14 de outubro de 2010, às 23:10

CULPA

por Clarice Reichstul

Eu já lá ia bem feliz nessa história de maternidade, crente que o que afligia os outros não ia me importunar. Mas eis que uma semana de trabalho pesado (saindo de casa as quatro da matina e voltando depois das dez), noites sem dormir e dias sem ver o Benjamim se transformaram na maior culpa da paróquia.

Ainda não tinha sentido uma tão forte, dessas de arrasar o coração, sabe? Que aperta, cala fundo… Começou com uma coisa do meu filho não querer ir para casa, sempre que saíamos da casa da minha mãe ou do meu pai, lá vinha: “O Benja não quer ir pra casa do Benja, quer ir pra casa da vovó (ou do vovô)!”. Eu não me ligando de nada, bem retardada, achando que ele estava era com vontade de farra.

Aos poucos fui percebendo, e no percebendo, a coisa toda foi doendo (afem, que baranguice, rimou!) e agora, tô aqui, no clube das mães e pais culpados. E o pior, é que a culpa não te deixa fazer as coisas direito, fica tudo muito mais do que era para ser, cada gesto, cada embate. A gente perde a autoridade de pai e acaba virando uma massa de manobra, fácil fácil de dobrar.

As respostas para como se lidar com isso são relativamente simples: trabalha menos, arranja atividades pra preencher esse vazio, larga o trabalho, decide viver no campo, ai!  Nenhuma das respostas funciona, porque não trabalhar é fora de cogitação, atividade não substitui afeto, viver no campo não rola para uma urbanóide como eu…

E nessa hora, qualquer comentário e a culpa pesa, fica grande e gorda em cima dos ombros. Como a gente resolve isso? Toca desmarcar compromisso, cabelereiro, aula, terapia e o diabo a quatro. As vezes funciona, outras vezes não.

Percebi essa semana que, o que importa, é passar o pouco tempo que tenho com ele de corpo e mente presentes, aproveitando cada farra, cada brincadeira e conversa. A culpa não vai embora, mas fica mais fácil de carregar. E vocês? Como lidam com isso? Trabalhar e cuidar de filho não é bolinho!

“CULPA” tem 6 comentários.

  1. Gisela Gueiros

    ai Cla! Deve ser horrível essa sensação… Mas sua solução de aproveitar cada momento pareceu ótima! Dá um beijo no benja.

  2. Ilana

    Cla, a culpa assombra ate as mães que resolveram parar de trabalhar por um tempo, não tem jeito… Eles querem muito da gente, nos queremos mais ainda. acho Que a vida particular da Mae ( a unha, a terapia, o livro que ta quase acabando, a amiga no telefone, a ginastica), pelo menos por um tempo, sai prejudicada, mas antes de mais nada, porque ficar com os filhos, apesar de as vezes ser bem estressante, eh de verdade a coisa mais legal para qualquer Mae. Por isso acho que só tem uma solução, estar totalmente presente quando se esta junto, priorizar o estar junto e quando estiver fazendo outra coisa, qualquer que seja, relaxar e curtir tbm. Vc sabe que e uma super Mae, todo mundo que Tê conhece sabe, principalmente o benja.

  3. Tammy Montagna

    Clar…oh boy do I know. My work schedule has been brutal and even though my kitchen is in the same place as my daughter’s toy chest…the guilty feeling is IMMENSE! And I am trying to do the same…take some time to be only with my daughter. I.E. Don’t open your email…don’t file your haggard nails. And be happy that you are able to rely on your parents…so much better than any babysitter/nanny in the world. I am certain that the quality time you spend with Benja will be remembered lovingly by your son as well as the pride in having such a successful talented Mommy.
    Big kiss!

  4. Lu Eguti

    Oi Cla, putz, certeza que toda mãe que trabalha (e que não trabalha) padece de alguma culpa, vem de brinde com a maternidade, e pra gente que tem essa vida sem horário e sem final de semana fica ainda mais evidente…
    Eu fico chateada porque o Artur fica o dia todo na escolinha… apesar de saber que lá ele está bem, e que sempre que dá ele chega mais tarde ou sai mais cedo para ficarmos um tempinho a mais com ele etc e tal. O que eu faço é exatamente o que você disse, curto pra valer cada momento que tenho com ele, e abro mão de compromissos sociais e vontades pessoais para aumentar mais esse tempo. Na real eu acho que a gente tem que achar a harmonia entre as coisas, se não rola largar o trabalho pra ficar com os filhos, é porque de uma certa forma trabalho também é uma prioridade pra gente, né?
    MAs enfim, o que eu sei é que amamos nossos filhos e eles nos amam, e cada segundinho de convívio reforça isso, e é esse tempo que vale a pena, sem pensar se é o dia inteiro ou algumas horas de manhã/na semana/no fim de semana ;-)
    Bjs pra vc e pro Benja!

  5. greice

    Oi Cla,
    Fico achando que na maioria das vezes nem é culpa, sabe? Quando eu vejo menos o João (o que é raro porque estou em tempo de devoção total, levo e pego na escola, faço janta, dou papá, banho, faço dormir, acordo com suquinho verde e continua…). Enfim, quando o vejo menos fico com um sentimento pesadão, difícil de conter e de lidar na relação, bem parecido com o que vc descreve. Já achei que era culpa, mas acho q é algo maior, que vem do sentimentos loucamente intensos que temos pelos filhos e também de um apego absurdo e da tristeza por perder cada horinha longe deles, porque é quase sempre mais legal ver as novidades que eles trazem do que qualquer outra coisa lá no mundo. Difícil de segurar, mas dizem por aí que é normal!

  6. boas perguntas bons encontros

    renunciar algo, ainda que temporario, faz parte da maternagem.
    beijo e adorei sua coluna.


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Clarice Reichstul
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