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Maria Montero
9 de novembro de 2010, às 15:11

MUITA CALMA NESSA HORA!

por Maria Montero

É complicado para mim, comentar qualquer trabalho ou visita a Bienal de São Paulo sem antes  expressar um pouco  do desconforto que sinto. Não se trata de uma crítica direta a essa mostra específica, que isso fique claro, mas sim do estranhamento que me causa perceber a dimensão da institucionalização das coisas, e nesse caso, da arte.

Na entrada, tendo a bolsa revistada, caminhando pela passagem detectora de metais, uma breve tristeza me toca. Que adentrar pouco poético, penso. Ah…esse mundo…

Comigo entraram juntos uns meninos, adolescentes paulistanos, habitantes do lado de fora da elite minoritária. Olhando para o segurança: “vai revistar a bolsa? Tá achando que nóis é traficante?” O Outro responde: “é nóis!”

O mundo que vivemos é de fato bastante absurdo, penso. E o Brasil, é de fato o pais das desigualdades e paradoxos.

Daí vêm a quantidade de obras, de pessoas, de grupos escolares e principalmente de ruídos. Muitos e misturados.

Fico me perguntando o que de fato se absorve depois de uma visita. O que se consegue apreender. Fico pensando se esse modelo de exposição tem algum poder transformador para o público…Se sim, qual seria?

Há bons trabalhos e boas obras. Um mostra bem montada. Sim, sim.

Mas se a arte é reflexo da história do homem, fica parecendo- ali naquele contexto- que o homem desses tempos, e , em conseqüência a arte, está engessado num sistema um tanto limitador no que se refere aos questionamentos filosóficos . Tudo correto, bem montado, bem organizado, com dinheiro (público). Tudo bem feito. Mas e daí?

São questões utópicas, claro, apenas divagações. Eu mesma vivo bem inserida nessa sistema complexo do mundo capitalista. Meus comentários são só uma busca própria por um lugar de respiro, de legitimidade poética. Respeito o trabalho sério e árduo que ali foi despendido. Mas fico toda perplexa.

Os urubus não deram conta. Meu raciocínio não encontra uma lógica de entendimento.

Agitações a parte recomendo (para quem mora em São Paulo) que visite várias vezes. Com calma.

Antes de entrar é legal dar uma volta no Parque, colocar o pé na grama,  tentar deixar a vida pra fora, vá sem pressa.

Depois de uma hora já se está meio tonto com o excesso de informação, portanto meu conselho é  se deixar agarrar naturalmente pelas obras que te mobilizam e conviver um tanto com elas, pensar, anotar. Aproveitar mesmo. Ir contra o ritmo frenético que a exposição impõe e encontrar uma maneira própria de ver, embalada pelos seus próprios interesses, vontades e prazeres.

Sem a ansiedade de ver tudo é possível sair de lá emocionado com alguns trabalhos específicos (individualmente há obras incríveis e de fato muito importantes).

Vou fazer posts separados. Um artsita de cada vez pra contar o que me comoveu.

Começo pela  série de fotos “ The Adventures of Gulle and Belinda and the Enigmatic Meaning of  their Dreams”  de Alessandra Sanguinetti.

site dela eu achei fraco, com ausência de textos. Mas fotos me seduziram.  Um incômodo estranho que vale a pena viver por alguns instantes.  Depois de ver as fotos (ao vivo de preferência), assista ao filme demente Pink Flamingo do John Waters, tem algo a ver.  Explicitação do lado estranho e obscuro dos homens. Que todo mundo esconde, mas a arte quando quer, mostra.

Ah! É permitido fotografar (tava na hora né?).

“MUITA CALMA NESSA HORA!” tem 3 comentários.

  1. Evanes

    Fui na Bienal e senti algo parecido, mas ao contrário de ti tinha tempo cronometrado para ver todas as obras. Adorei que você irá abordar um artista de vez…. vou acompanhar!

  2. Maria Montero

    Legal que vc gostou. Acompanha mesmo que eu vou falar bastante do assunto ainda!

  3. Evanes

    Eba!


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Maria Montero
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