Manoela Miklos *
Bill Cunningham fotografa moda, mas se jogasse bola, seria o Pelé. Se fosse sambista, seria o Noel; se fosse uma banda de Nova York, seria o Velvet Underground; se fosse um poeta curitibano bigodudo, seria o Leminski. Bill é um gênio e o Minas de Ouro já declarou seu amor por ele algumas vezes. Se você procurar saber mais sobre ele, o Google provavelmente te contará que ele é fotógrafo do New York Times, pioneiro da street fashion photography. E é tudo verdade. Bill registrou em sua coluna no Times quase meio século do vai e vem de Nova York: desfiles espontâneos na passarela de asfalto das calçadas novaiorquinas e o estilo único dos rendez-vous da cidade. Mas não se engane. Bill não é um fotógrafo de moda. Bill é muito mais.
Bill é um jornalista. Suas fotos são mais do que fotos de moda. São crônicas. Mas Bill é mais.
Bill é um filósofo. Um Thoreau contemporâneo. Militante da simplicidade e da independência, o autor americano Henry David Thoreau dizia que “a man is rich in proportion to the number of things he can afford to let alone”. De acordo com o índice-Thoreau de prosperidade, Bill é riquíssimo: divide seu espaço apenas com sua obra e escolheu prescindir de todas as outras coisas da vida. Dinheiro e amor, por exemplo, são coisas das quais Bill abdicou. A cada clique, enfim, Bill diz sim pra Thoreau: “as you simplify your life, the laws of the universe will be simpler; solitude will not be solitude, poverty will not be poverty, nor weakness weakness. Mas Bill é mais.
Bill é um cowboy. Sai todo dia, montado em sua bicicleta e munido de sua câmera, pra uma nova aventura, pra enfrentar mais uma vez o bang-bang fashion das ruas de Nova York. Solitário, mas livre, Bill é um cowboy, um sartorialist cowboy. The good, the bad and the stylish. E de repente não parece coincidência o fato do verbo to shoot significar ao mesmo tempo “fotografar” e “atirar”. Mas Bill é bem mais.
Bill é um historiador. Sua coluna no Times pode parecer, eu sei, uma coluna de street fashion. Mas não é. Bill fotografa o tempo. Parece uma saia, um chapéu, mas é a espiral hegeliana da história.
O documentário dirigido por Richard Press, Bill Cunningham New York, que a minha nova pessoa favorita Aninha me recomendou, faz jus ao seu protagonista. Parece um documentário. Mas não é. É mais. É uma antologia, uma tese, um western e um romance histórico. É um retrato delicado de um retratista do zeightgeist, do espírito de seu tempo.
Se o filme estiver em cartaz na sua cidade, não perca. Vista sua melhor roupa e vá ao cinema.
* Manoela Miklos: Criada on the road, é punk por parte de pai, hippie por parte de mãe e careta autodidata. É Doutoranda em Relações Internacionais, queria ser a Joni Mitchell em 1970 e é súdita do Rei Roberto Carlos.
No canal Participação Especial cada post é escrito por um convidado. Os assuntos são os mais variados – de ecologia a cinema, de comportamento a ciência, de arquitetura a fotografia. Se você quiser participar, mande um e-mail para minas@minasdeouro.com.br, e o seu post também poderá ser escolhido!




2 de abril de 2011, às 14:48
Lindo post! Quero muito ver o filme
2 de abril de 2011, às 16:24
Texto delicious Manô!! To morrendo de vontade de ver o filme!! BJS
4 de abril de 2011, às 21:48
Brigada, Gisela! Veja sim, vale muitíssimo a pena! Delícia total!
Tão delícia quanto escrever aqui e ter meu nomezito junto dessa mulherada-maravilha!
Florinda, love you, né? Desde sempre e pra sempre!
4 de abril de 2011, às 22:53
Assisti o filme na semana passada e dois dias depois ví uma bike acorrentada na frente do NY Times. Minha vontade era deixar um billhete I Love you Bill. Mas não tinha papel, nem caneta… ele é muito incrivel! amei o post.
6 de abril de 2011, às 19:25
Oi Mano, que belo texto! sou fa do Bill, nao vejo a hr de ver o filme. Seu texto me animou mais ainda! bjs
8 de abril de 2011, às 00:26
duas marianas! brigada mariana! que emoção cruzar uma bicicletinha na porta do NYT! da próxima vez desmarca todos os compromissos e fica lá paradinha até o dono sair! e se for mesmo do bill, agarra ele e da um abração por mim! brigada mari! quando estrear por aqui, nos encontramos no cinema! beijos, gente!
11 de abril de 2011, às 23:24
adorei o post….eu tbm queria ser Joni Mitchell…