A gente viu, nas últimas semanas, cenas angustiantes. As ruas de Londres tomadas, febris.
E eu, assistindo tanta desesperança transformada em cólera, lembrei logo de “Eletric Avenue”, som genial de Eddy Grant.
Grant nasceu na Guiana e seguiu com os pais pra Londres ainda garoto. Na Inglaterra, se juntou a outros músicos da pesada e montou, em meados dos anos 60, o The Equals. Os caras misturavam funk, rock, reggae, dub e botavam a turma toda pra dançar.
Saca só o estilo radical do pessoal e a peruca loiríssima do Grant. Cara, que onda.
O maior hit do The Equals foi “Baby, Come Back”, lançado em 66. Você super conhece esse som na versão do UB40 com o Pato Banton, de 94. Eu adoro. O original e a versão dos anos 90. E já vou avisando: eu curto Pato Banton, tá? Me deixa.
Mas, voltando ao Grant. Em vôo solo, ele também presenteou a gente com um monte de delícias dançantes. “I Don’t Wanna Dance”, de 82, é umas dessas gostosuras.
“Eletric Avenue” é dessa safra de grandes tunes. E a letra fala dos riots que tomaram as ruas de Brixton, sul de Londres, em 1981.
Eletric Avenue é uma rua importante de Brixton. E a letra diz:
Workin’ so hard like a soldier
Can’t afford a thing on TV
Deep in my heart I am a warrior
Can’t get food for them kid
We gonna rock down to Electric Avenue
and then we’ll take it higher
Em 81, a Inglaterra enfrentou uma recessão dureza. E as periferias foram, claro, mais afetadas pela crise. Em Brixton, região que reunia comunidades de imigrantes africanos e caribenhos, a barra era pesada. Desemprego, pouquíssimas oportunidades e a convivência com uma polícia violenta.
Nos dias 10 a 12 de abril de 81, enfim, uma gente sem futuro e com raiva tomou as ruas. Como disse o Gil, das feridas que a pobreza cria, eles eram o pus. E quiseram trazer a sua desgraça à luz.
Cenas muitíssimos parecidas com as que vimos nos últimos dias.
A gente sabe. A vida é cheia de som e fúria.
Pra quem curte o som, taí “Eletric Anevue”. Pra ouvir e balançar.
Pra quem, como eu, curte o som, mas também quer entender a fúria, taí um artigo dos professores Saskia Sassen e Richard Sennet para o NYT.


