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Manô Miklos
27 de outubro de 2011, às 22:10

O XOTE DAS MENINAS

por Manô Miklos

Tenho andado por aí, meio desligada. Mas voltei pra contar pra vocês: aconteceu. Eu ouvi o novo disco da Mallu Magalhães e gostei.

Eu sei. Você que me conhece vai lembrar que eu defendi apaixonada, em muita mesa de bar, que gostar de uma menina ainda tão menina só porque ela ouvia Dylan e Cash era um equívoco. Eu sei que muitos por aí me ouviram bradar que isso não era mérito, que bom mesmo seria se toda menina e menino ouvisse “Blonde on Blonde” desde o berço.

Pra você que estava comigo nessas ocasiões, eu venho agora dizer algo muito importante: eu estava coberta de razão. Gostar de uma menina ainda tão menina só porque ela ouve Dylan e Cash é bobeira. O lance é que a Mallu é muitíssimo mais que isso. Eu que não sabia.

Eu ouvi Mallu ao vivo recentemente. Ela cantou Noel Rosa e eu achei uma belezura. Aí, recentemente, saiu do forno “Pitanga”, o novo disco. E foi então que aconteceu. Aconteceu que eu gostei muito.

Um dia desses meu pai comentou que a Mallu é um paradoxo intrigante. Que ela, ao mesmo tempo que é pura timidez e acanhamento, impõe no seu trabalho um jeito só seu de fazer tudo. Rola uma identidade fortíssima que ela imprime tanto no processo quanto no resultado do que faz. Pai, cê tá certíssimo. E “Pitanga” traduz muito bem essa contradição: tá lá todo o embaraço delicado de menina moça e toda a desinibição de artista consciente e consistente.

E eu podia falar muito mais. Podia falar dos arranjos, das letras. Podia falar de como o disco parece um furinho na parede, pelo qual a gente olha um pedacinho da vida da vizinha.

Principalmente, eu podia falar longamente de como, numa cena musical cheia de gente que força a barra do despojamento fake, gente que try too hard pra parecer que não tá trying at all, “Pitanga” é um alento.

Quando Mallu quer enfeitar ela enfeita. Sem fingir que não. E quando ela joga um verso assim, meio sem mais nem menos, eu acredito que é de verdade. Em “Pitanga”, Mallu alterna pretensão e despretencão com igual espontaneidade. Coisa rara. E eu confesso que eu gosto mesmo é de gente assim: que passa o dia de pijama e passa um bom café coado na calcinha com igual elegância.

Eu podia, enfim, falar um monte de coisas sobre um monte de coisas. Mas, olha, isso tudo você pode descobrir ouvindo a Mallu. “Pitanga” é bom porque reúne crônicas de uma menina que tá na dela. E tá feliz. Qualquer tentativa de explicar demais o registro desse momento diminuiria sua força.

Fala você, Mallu.

“O XOTE DAS MENINAS” tem 5 comentários.

  1. carol vinagre

    Oi Manô!!!

    Tava com saudades de seus posts!!!! Eu acompanho sempre o Minas e gosto muito de sua escrita que exala sua paixão pela música!!!!

    Linda a sua fala sobre o trabalho da mallu!

  2. Manu

    Eu curto Mallu desde o último CD dela. Acho que o nome do álbum é “Mallu Magalhães” mesmo. Sem mudar a vida mesmo, mas… E precisa mudar a vida pra falar que gosta? Todo aquele lance dela com o Camelo e a reação dela na música “Take it Easy” é linda: simples, honesta, mas, pra mim, profunda. Pra mim, o paradoxo que você fala no seu texto vem muito nessa música: é quase uma versão imaculada dela, com aquela voz de menina; mas esse tom de infância carrega uma lucidez do mundo que eu admiro e gosto de respirar nas pessoas. A gente procura demais a complexidade e se esquece de compreender tudo (de complexo, diga-se de passagem) que está por trás de uma frase como “Love is no problem; no, mama; let´s smile to life; and take it easy”.

  3. Manô Miklos

    Carol, que delícia de recado! Brigadíssima! Muito mesmo! Emocionei! Eu andei meio ocupada falando de coisas muito menos apaixonates que música, mas tô de volta firme e forte! Um beijo bem grande!

    Manu, concordo com vc, o último disco da Mallu já era bem bom. Mas acho que esse é ainda melhor. Ela amadureceu muitíssimo como artista. Sobre simplicidade, eu concordo também. Não que eu ache que música tem necessariamente que ter sempre essa pegada simples. Meus posts sobre rock psicodélico brasileiro dos anos 70, por exemplo, são registros da minha paixão por essa onda que não tem nada de simples, né? Muito pelo contrário. Mas eu gosto de coisas que são assumidamente pretensiosas, ambiciosas, e coisas que são assumidamente singelas. O que eu não curto é essa parada naïf fake, sabe? Quer enfeitar, montar? Manda ver. Quer fazer uma coisa simples, despojada? Vamo lá. Só que tem que ser de verdade, genuíno. E pra isso tem que ter uma baita coragem. Resumindo, isso que me agradou em “Pitanga”: é o disco de uma artista corajosa.

  4. Manô Miklos

    Nem me despedi! OPS. Beijo pra vc, Manu!

  5. Paty Moll Novaes

    Nossa, Manô, que coincidência, ouvi o CD na semana passada e não parei de ouvir essa semana inteira, também adorei, especialmente essa música que você colocou, que diz muito desse novo momento. E fora que a voz dela tá muito mais bonita, não está mais tanto de menina, e ela tá um arraso, muito gata! ahaha! Beijos!


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Manô Miklos
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