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Maria Montero

7 de outubro de 2011, às 11:10

HAJA FÔLEGO DAS ARTES!


por Maria Montero

Setembro foi um mês mega intenso de eventos artísticos. Eu fico meio esgotada com tanta coisa, com a pressão de ver tudo ( e então não vemos nada ), com as milhares de aberturas ( e vc vai encontrando as mesmas pessoas em loop e dá uma certa aflição) e com todas as atividades paralelas, encontros, palestras…até os caderninhos ficam perdidamente confusos….

Pois bem, eu já disse isso antes e tento aplicar na minha vida ( já que tudo isso que eu falei acima é pra mim  vida e trabalho, sem fronteiras do que é um, e do que é outro )…enfim…não dá par ver tudo, não dá pra ler tudo, não dá pra absorver tudo. Isso dá stress…! aos poucos, quando você vai formando seu próprio  repertório, você vai dando uns recortes do que, de fato, te interessa….ver uma mega exposição também é assim, hoje em dia eu vou nessas que tem centenas de trabalho e vejo 4. Depois volto, pesquiso, volto dou uma passeada, descubro coisas novas que me chamam atenção…A internet ajuda…O importante é não achar que você viu uma exposição no dia da abertura. Te garanto. Não viu.

Considerando isso vou falar de duas exposições que vi, mas não vi.Voltarei pra falar com calma delas.

As duas são de responsa master…São Paulo ( o Brasil ) está no circuito internacional das artes. Mesmo!

A primeira Em Nome dos Artistas ocupa o prédio inteiro da Bienal e trouxe parte da coleção de arte contemporânea america do Museu Astrup Fearnley, de Oslo.

Os nomes não podiam ser mais peso pesado, Jeff Koon, Damien Hirst…esse naipe. Eu fui na palestra do Jeff Koons ( post a parte ) e na abertura, mas ainda não fotografei…pretendo voltar outro dia, no fim do dia, no horário mais vazio possível, mas recomendo pela importância de ver obras dessa magnitute no Brasil. Caso muito raro. Sem juízo de valor. Tem que ver.

A outra é o Festival Videobrasil, festival que, apesar do nome, ampliou seu campo de atuação e não abrange mais só  vídeo. A figura central é o super badalado Olafur Eliasson que tem trabalhos no Sesc Belenzinho, Sesc Pompéia e Pinacoteca ( poder hein? ), além das incríveis bicicletas espalhadas pela cidade ( já viu? ).

Eu só fui no Belenzinho portanto temos uns 6 posts a parte…ai gente não estou dando conta!!!!

Tem mais de cem trabalhos lá, selecionados via edital. Eu “prestei atenção” em 3 (rs viva a homeopatia)…A fragilíssima e emocionante  instalação de “paninhos” do Adriano Costa, o comovente vídeo do sino, do mineiro Pablo Lobato e a performance atitude da Paula Garcia, que aconteceu só na abertura, mas que agora você pode ver os resquícios e o registro do trabalho.

Uma sala de imã onde  ela durante HORAS ficou carregando entulho e  vai “grudando” nas paredes. Tá pensando que ser artista é moleza? Esquece o glamour, viva a atitude!

Maria Montero

26 de setembro de 2011, às 09:09

SEM CONFIANÇA NÃO HÁ ENTREGA!


por Maria Montero

Já conhece a Mãe Duchampa?

Entra no site, assiste o vídeo institucional que lá está tudo bem explicadinho.

Eu contratei os serviços. E garanto resultado. Pode confiar.

Sem confiança não há entrega!



Maria Montero

17 de setembro de 2011, às 17:09

SP-ARTE-FOTO


por Maria Montero

Esse fim de semana, no nono andar do Iguatemi, tem a Feira de Fotografia de São Paulo (das 14-20h).

Eu estou trabalhando aqui com a Luciana Brito Galeria, por isso tenho 5 minutos pra escrever, por que tá cheio de gente e amigos e eu não paro quieta um minuto.

É legal por que é gratuito, não muito grande, e,  apesar de ser uma feira, com caráter comercial, dá pra ver coisas lindas reunidas, coisa que não acontece sempre.

As minhas favoritas estão aqui na Luciana Brito, talvez seja por que eu tenho uma relação afetiva com as obras, acho ótimo ficar rodeada desses artistas: Marina Abramovich, Regina Silveira e Geraldo de Barros.

Eu também recomento muito olhar com atenção  a sensacional série do fotógrafo canadense Robert Polidori na 1500. Eu sei que o dia está lindo lá fora, mas quando o sol baixar, vêm me visitar.

ps: coisas que dinheiro nenhum do mundo pode pagar, a criança que andando alegremente com seu carneirinho vê a foto da Marina Abramovic (“Holding the Lamb”) e sem pestanejar, faz a Marina.

Maria Montero

5 de setembro de 2011, às 11:09

MEDITATION, TRANCE


por Maria Montero

MEDITATION, TRANCE é o nome da exposição em cartaz na Galeria Mendes Wood,  até o dia 24 de setembro.

Com curadoria de Pedro Mendes e Marcio Harum, a coletiva reune um grupo bastante particular ( e uma mistura bem interessante) de artistas, e um seleto conjunto de trabalhos, que sugerem estados alterados de percepção e memória.

Eu gostei muito. Primeiro pelo aspecto experimental da curadoria e da montagem. A exposição proporciona um certo silêncio, e as obras, expostas de maneira nada espetacularizadas, evocam primordialmente as questões ligadas ao espírito.

Assim, forma e a  matéria se apresentam no seu estado mais frágil.

Vê-se nas pesquisas desses artistas, corpo e mente presentes , esvaziados por uma condição de suspensão ou concentração.

Dedique tempo a essa visita. Vale olhar os trabalhos de perto.

Tem preciosidades como o vídeo “The Latest in Blood and Guts”, de Ryan McNamara ( na foto abaixo ), uma suposta auto-indução a hipnose. Performance, dança e teatro, em um vídeo cheio de humor. Uma foto da série “Mudman” realizada na década de 70, mostra o artista Kim Jones, em uma de suas andanças performáticas, com o corpo revestido de gravetos e galhos (peguei a foto de um blog, não sei se é exatamente essa que está lá, mas é dessa série). Dá um google nele, sensacional.Um vídeo lindo, “Meditation on Violence” da musa Maya Deren. Um outro vídeo do australiano Shaun Gladwell (adoro!).

Tem outros nomes fundamentais como Mona Hatoum, uma das principais artistas do Líbano…mas tem especialmente dois trabalhos que sintetizam muitas das questões ali colocadas: “Economia do Transe”, de Deyson Gilbert  e “As you like it”, de Adriano Costa. Na primeira, a natureza efêmera da instalação, que agrupa elementos como uma cadeira, um balde e um bloco de gelo, que ao derreter causa um movimento dominó aleatório, e a segunda, subvertendo as regras museográficas, está ali, no chão, pedacinhos de pano montados modularmente. Estão lá, desprotegidos, numa situação desprovida das solenidades das artes pensadas para durar. Já se sabe que a consciência, a sabedoria e a profundidade, estão mais ligadas as questões filosóficas do ser, do que a permanência e consistência da matéria. Já se sabe, mas não custa nada lembrar.


Maria Montero

11 de agosto de 2011, às 15:08

ARTE-KUNST


por Maria Montero

Eu sei.

Tô sumida.

Tava curtindo uns bons drinks no verão europeu. Berlim e Veneza.

Foi mais que uma viagem, foi uma trip mesmo. Buraco da Alice. Sumi no buraco. Foi mal.

Apesar de ter fotografado muito e vivido intensamente cada minuto, não consegui escrever uma linha. Nadinha. Eu que vivo de caderninhos, poeminhas, devaneios, de anotar tudo, fazer diários, blog…Nada.

Estava num outro ritmo. Image-nation.

Justificativa dada, estou transbordada de arte (kunst, em alemão), e muitos posts se desdobrarão dessa jornada.

Como cheguei hoje, o primeiro post será de duas coisas bem pertinho de mim. Uma em Berlim, outra em São Paulo.

Em Berlim, a mostra coletiva Friends of Agora. Estou participando com um trabalho, mas, lá no Agora, tudo vale a pena, a começar pela casa e pelo jardim, e o clima de amizade.

Vai sair um texto sobre tudo mas, como acaba domingo…Vá aproveitar o Agora, pois o texto é coisa do futuro.

Em São Paulo, outra coletiva, na Luciana Brito Galeria, onde eu trabalho.

A mostra Estratégias Para Luzes Acidentais, ocupa todas as salas, e está bem linda.

Com curadoria de Eder Chiodetto, a mostra explora a poética da luz, na obra de 18 artistas.

Eu ia postar umas fotos, mas deu um pau aqui e não vou conseguir.

Mas é em São Paulo, vêm visitar que vale a pena mesmo.

Vai até 3 de setembro.

Luz no Agora para todos (desculpem, fiquei mística).

Maria Montero

18 de julho de 2011, às 12:07

RECOMENDO


por Maria Montero

Sempre me perguntam se existem cursos livres de curadoria e produção.

Pois bem, cada vez tem mais, mas nunca sabemos o que esperar…

Por isso eu resolvi recomendar esse, que tenho certeza que vai ser legal.

O Andrés Hernandez, que irá ministrar o curso, trabalha comigo, sabe das coisas, além de ser uma pessoa extremamente generosa e gentil.

Pra quem se interessa no assunto, o preço está honesto e vai dar uma boa introduzida em questões importantes.

As informações estão no flyer abaixo.

Maria Montero

7 de julho de 2011, às 14:07

FAZENDO ARTE


por Maria Montero

Tenho um interesse particular por artistas que vão fazendo arte assim….da própria vida.

Ivan Fagote, colombiano radicado em Paris é assim… uma pitada de cara de pau, uma pitada de demência e….se joga!

O site dele é incrível, tem 43 projetos e as imagens ficam bem grandes, dá pra visitar o trabalho.

Olha o projeto número 5, “Feeling”.

Por que a arte não precisa ser solene.

Maria Montero

18 de junho de 2011, às 13:06

SOLID LIGHT FILMS


por Maria Montero

Está de bobeira em São Paulo nesse maravilhoso dia de outono?

Que delícia. Já eu, não estou de bobeira . Operária das artes que sou, estou aqui na Luciana Brito Galeria, um dos meu trabalhos!

Mas confesso que aqui também está uma delícia! Vêm me visitar! Hoje é o último dia da imperdível exposição do Anthony McCall, artista britânico que reside em NY.

Eu conhecia pouco, mas fiquei fã. O trabalho é muito consistente e o cara é gente fina, elegante e sincera. Foi amigo do John Cage nos anos 70. Dessa turma.

A exposição é peso pesado. Uma mostra que poderia estar em qualquer grande museu do mundo. Obras históricas dos anos 70 como os filmes “Landscape for fire” (algo como paisagem para o fogo, mas não dá pra traduzir) e “Earthwork” (trabalho de terra- eu amo esse trabalho!) dividem o espaço com suas monumentais instalações, os “solid light films”. Alguns realizados nos anos 70 como “Line describing a cone” e outros mais recentes como ” Meeting you halfway”.

Além disso desenhos (lindos!) e cadernos originais.

No dia da abertura McCall realizou a performance “Five minutes drawing”, um desenho em cinco minutos, como o nome sugere. No vídeo dá pra ver a performance. Eu acho comovente. O gesto preciso do artista. Veja até o final!

O desenho do “Five Minutes Drawing” está logo na entrada da galeria. Um detalhe peculiar. McCall abandonou as artes por 20 anos. Aqui vemos então os anos 70, e a retomada nos anos 2000, era da tecnologia. Muito interessante perceber o que aconteceu no mundo.

Essa exposição é uma passeio zen, um buraco da Alice. Uma experiência interativa sem os truques da era dos espetáculos. Uma obra para ver, sentir, contemplar, participar e refletir.

Um silêncio pra ficar gravado na memória.





Maria Montero

9 de junho de 2011, às 20:06

O QUE EU QUERO SÃO PALAVRAS CHEIAS DE VERDADE.


por Maria Montero

Só o que eu quero.

Maria Montero

29 de maio de 2011, às 10:05

“AQUI ESTÁ MEU CORAÇÃO, FAÇA DELE O QUE QUISER”


por Maria Montero

Termina hoje a exposição Sob o Peso dos Meus Amores  do artista Leonilson.

A mostra está em cartaz no Instituto Cultural Itaú, em São Paulo, porém pode-se também visitar a remontagem de uma de suas instalações na Capela do Morumbi.

O  Leonilson é um dos dez mais para mim.

A exposição é enorme e dá pra ver bastante de sua produção de desenhos, pinturas e seus maravilhosos bordados. Dá também para virar as páginas  de seus cadernos repletos de anotações comoventes, digitalizados para a ocasião.

Visitando essa exposição, pode se ter a falsa impressão  de que o artista (morto em 1991 infectado pelo vírus HIV ) tinha uma vida encantada, feliz e colorida. Não é o caso. Sua vida foi bastante sofrida.

Leonilson fala sim das coisas do coração, o amor é sua matéria prima, mas sem romantismos. Ele expressa o coração que pulsa, que vibra, que vira do avesso, que sangra e que sente, com todas as sua forças.

Não deixe de ir, uma daquelas experiências de onde não se sai ilesa.

Ah. Pode fotografar. Eu fiz as fotos com o telefone.Se alguém por acaso fizer fotos incríveis, manda para mim?

Maria Montero

13 de maio de 2011, às 17:05

ARTHOLICRAZY


por Maria Montero

Semana das artes em São Paulo, tô correndo tipo gincana.

Tenho cerca de 5 minutos para escrever esse post, portanto, vamos ao que interessa.

Tem SP-Arte até domingo. Vai lá. Lembre-se que não se trata de uma exposição de arte. É uma feira. Viu gente? Sem romantismos. Fundamental pra sacar o estado das coisas. Amanhã  tem o lançamento do livro do AVAF. Acontecimento das artes, eu acho. Livro incrível, de uma artista mega talentoso.

Imperdível também a exposição paralela Entretanto- O Desvio é o Alvo, com curadoria de Luisa Duarte. Tão importante ter esse tipo de “evento paralelo”. Muito saudável a quebra do monopólio.

A casa é absurda e tem muito trabalho bom. A montagem está muito legal. Um passeio.

Bom final de semana. Fui!

Maria Montero

7 de maio de 2011, às 01:05

O PÁSSARO AZUL


por Maria Montero

Hoje é o último dia para visitar a exposição O Pássaro Azul, de Rogério Degaki, na Galeria Triângulo em São Paulo.

Eu gosto muito do Degaki e de sua produção. Não que eu o conheça  intimamente, já visitei o ateliê dele e nos encontramos um par de vezes.Parece um personagem vindo de um desenho animado japonês e tem uma serenidade oriental. Claro, seu trabalho reflete tudo isso. Escultor de mão cheia e pintor com gestos precisos.

Eu fiquei com muita vontade de escrever um texto para essa exposição, mas acaba amanhã e a urgência bloguista demanda informação. Deixemos a reflexão para uma outra ocasião.

A exposição está belíssimamente montada.É pop e colorida mas transborda melancolia.

Apesar de contar com suas já conhecidas esculturas/personagens pintadas com tinta automotiva, dessa vez, algumas surpresas boas dividem a cena.

Considero os dois olhos gigantes (tipo olho de boneco) um excelente trabalho. É estranho, bonito, incomodo e tecnicamente muito bem realizado.

É olho por olho….

As imagens cedidas pela Galeria Triângulo são do talentoso Everton Ballardin.

Maria Montero

29 de abril de 2011, às 20:04

POST-TEXTO


por Maria Montero

Fui ver a exposição de uma amiga (amiga nova, não conhecia seu trabalho) e sai de um jeito bem bom. Sensação sublime igual quando se lê um bom livro, uma boa música, um bom filme.

Escrevi esse texto por vontade própria, misturada com uma demanda acadêmica: escrever um texto jornalístico sobre uma exposicão.

No fim, não serviu para a aula- muito poético.

Segue um texto poético sobre uma exposição.

Sem imagens. Para que o texto aguce a  imaginação.

Mas o lance mesmo é ir .


A Sala dos Grandes Retratos

Esse primeiro espaço eu chamo de “Sala dos Grandes Retratos”, diz a artista Sofia Borges, ao entrar na Galeria Virgílio, onde apresenta, até o dia 7 de maio, sua mostra individual, Pré-História.

Grandes?

Retratos?

São dezesseis trabalhos ao todo. Nesse primeiro ambiente, oito fotografias, de dimensões variadas estão dispostas: duas em cada uma das quatro paredes.

E mais uma, a da coruja.

Poderiam ser dípticos, mas não, cada uma tem fôlego de sobrevivência, e as combinações estão ali, mais para confundir, do que para esclarecer.

Em uma das paredes, uma fotografia de duas pepitas de ouro (retrato?)- uma em estado bruto e a outra lapidada- nos encara nitidamente, imóveis, silenciosas.O fundo é de um verde irreal, a impressão, em grande formato. A textura e a cor não oferece nenhuma pista.

Ao seu lado, uma imagem de cavalo em pequena  escala, escura, fosca, talvez pela escolha do papel de algodão. Misteriosa.

Fotografias?

Sim. O cavalo saiu de uma reprodução de pintura, e as pepitas de uma enciclopédia. Talvez. Nada fica muito claro, um enigma, com inúmeras possibilidades de resposta.

Depois a irmã. Vinte anos mais moça. Outra vez, uma estranheza. Sofia Borges tem apenas 27 anos, portanto, esse retrato da moça loira não poderia ter sido feito por ela. Seria então, uma foto da foto?

Seu olhar fixo nos encara de frente. Quem é ela? Do que se trata?

Foi essa foto, encontrada sozinha dentro de um álbum de família, que deu início ao mistério que contamina toda coleção de outras imagens que ali se apresentam. Nesse “retrato”, está contido toda a angústia, a consciência, a instabilidade e a solidão arrebatadora que nos acompanha ao visitar essa exposição. Uma arqueologia construída. Uma lógica própria dos sentidos.

Ao lado da irmã, o “Camelo”. A escala é parecida, o movimento e o ritmo, as cores, e até expressão do olhar se assemelha ao da irmã. Uma proximidade um tanto absurda.

Essa é uma “foto mesmo”.Tirada por mim, explica a artista. Será?

E as “Japonesas”, de quimono, que mais parecem fantasmas. Que cena é aquela? Construída? Fotografada? Escaneada? Real? Impossivelmente real? E isso importa?

E esse brilho estranho de flash, que ocupa parte da imagem?

E o pequeno “Cavalo Malhado”? Que corre para dentro da própria imagem, de costas para nós. Estranho retrato do impossível.

O “Xavier” e o “Almirante”, lado a lado. A escala e a posição dos corpos são idênticas. Um parece ficção e outro retrato do real. Ou vice-versa?

Um tem olhos estranhos. Outro tem algo de familiar. Ou não?

Uma pequena foto displicentemente colocada no corredor nos leva até a segunda sala.

Aparentemente displicente, pois o acaso não participa desse jogo mirabolante. Como na construção de uma obra literária, tudo, mesmo o mais paradoxal, tem razão de existir.

Ao entrar nessa segunda sala, uma figura de criança como que fantasiada para foto, faz pose. Usa óculos diferentes e dentadura de vampiro. A estranha semelhança com o “retrato” da irmã, nos coloca ainda mais perto do abismo e mais longe de qualquer tentativa de entendimento. Seria esse mais um tesouro encontrado em um álbum de família, ainda mais antigo? Poderia ser, não fosse a incrível definição da imagem, apenas possível em eras digitais.

Seu auto-retrato está ali também. A criança, a irmã ou a artista. Nenhuma história se apresenta. Pela semelhança, poderiam, ou não, ser a mesma pessoa. Poderiam, ou não, estarem vivas.

São mortos-vivos. Assim como a pepita de ouro, o camelo, ou o almirante de olhos estranhos.

Através do ato fotográfico, cada imagem se transforma em ruína, e guarda para si seus segredos. Sem que possamos desvendá-los.

Por último está a fotografia (fotografia?) que dá nome a exposição.

Uma cena que parece ter saído de um filme jurássico, ou de uma pintura, ou de uma enciclopédia? Ou é uma pintura?

E o que todas aquelas imagens tem em comum?

Aparentemente nada. Mas não há nada de aleatório em suas escolhas.

São narrativas negadas, histórias escorregadias, algo que não tem cabimento, e só poderia mesmo conviver, nesse universo construído pela museografia.

Sofia Borges não quer apreender nada.Tudo está solto. Livre e movediço.

E nesse percurso delirante por essa corda bamba, imagens que parecem arbitrárias se

aproximam, co-existem, criando laços sólidos de intimidade.

Nada acontece, nada quer, de fato, dizer, nada.

E é nesse silêncio fúnebre, em que a condição da imagem fotográfica reside, pelo fato de ser sempre algo que já não é, que nos vemos diante da constatação de que a memória é apenas uma coleção solitária ( e arbitrária?) de fatos inventados.

E não há nada além.

Maria Montero

16 de abril de 2011, às 18:04

SILÊNCIO


por Maria Montero

A artista colombiana Doris Salcedo nasceu na Colômbia, em Bogotá, em 1958.

Já é hiper consagrada, rodou o mundo com seu trabalho, expondo em lugares de grande prestígio como o Hall da Tate Modern, em Londres.

Suas esculturas e instalações feitas geralmente com objetos cotidianos, principalmente móveis, carregam sempre aspectos políticos, Salcedo usa como ponto de partida uma série de acontecimentos históricos, ligados a conflitos econômicos e sociais.

Fronteiras, imigração, segregação, os preconceitos raciais, são percebidos em seu trabalho -reflexo de sua situação como artista, nascida em um país complexo e cheio de desigualdades como a Colômbia, e ainda assim, respeitada internacionalmente.

A semana passada, tive o privilégio de ir ver sua monumental instalação “Plegária Muda” , no belo Museu Universitário de Arte Contemporâneo , na cidade do México.

A instalação é solene, como um memorial, um funeral. Uma série de mesas (uma na posição normal, outra invertida) ocupa a imensa sala do museu. Entre as mesas, blocos de terra compacta, de onde nascem tímidas graminhas (eu fui na abertura) que de alguma forma atravessa a mesa e germina. Um pouco de vida, de esperança.

É muito forte, muito bonito e muito triste.

Cada mesa faz uma homenagem a uma criança morta pela violência.

Foi bem comovente ver esse trabalho um dia depois da tragédia de Realengo, eu estava fora do Brasil e acompanhei só pela internet, mas não tive estômago para ler a carta do menino, nem pra ver foto de nada.

Mas naquela sala de museu, fiz meu minuto de silêncio, e derramei uma lagriminha, e suspirei profundamente torcendo  para que a vida tenha mais valor e para que a violência não se torne tão banal a ponto de nos acostumarmos com ela.

Maria Montero

11 de abril de 2011, às 21:04

FORA DO PLANO É TUDO ILUSÃO


por Maria Montero

Considero o carioca Gustavo Speridião um dos artistas mais interessantes dessa geração… Quem me apresentou o Speridião foi meu amigo Franz Manata, artista e professor (mineiro, mas mora no Rio de Janeiro).

Manata tem uma visão muito atual da produção artística, e uma pesquisa extensa e bastante interessante no que se refere a artistas que estão, de fato, experimentando, subvertendo, questionando as convenções, problematizando a forma.
Em um momento que o mercado dita todas (ou quase todas) as regras, e pouco se questiona sobre o sistema, os debates de idéias ficam ofuscados por outros interesses, e Manata, é daqueles que coloca o campo das idéias em movimento, pelo simples interesse de fazer… arte.

O fato é que quando entrei pela primeira vez na casa-ateliê do Speridião, lá no Morro da Conceição, fui tomada por uma coisa inexplicável e arrebatadora, daquelas que viram a gente do avesso (raro, muito raro). Desde então, acompanho seu trabalho, que nunca se esgota. Artista daqueles que faz da vida, arte. Sempre fico questionando o que vai ser dessa massiva produção de arte que anda circulando pelo mundo. Esse excesso, consumido por aí. Claro, é reflexo do mundo em que vivemos, claro, a arte não poderia estar isenta, porém, essa questão precisa, ao menos, estar em pauta. Não?

A arte não morreu, mas está bastante desgastada. Muito presa ao passado e a tradição. A produção de Gustavo Speridião não reflete nada desse cansaço, nem de crise alguma, em seu trabalho tudo vibra, pulsa e perverte a ordem.Definitivamente um artista do séc XXI. Olhando, sem medo, para esse abismo chamado futuro.

Até dia 23 de abril é possível visitar sua incrível exposição na Galeria Anita Schwartz, no Rio de Janeiro.
É imperdível! Imperdível também a visita a todos seus links, de seu trabalho solo e do Coletivo Gráfica Utópica (formado por Speridião e os incríveis dementes Flávio Vasconcellos e Andrei Müller). Soco no estômago. No bom sentido.
Os links: Gráfica Utópica, Circo dos Sonhos, O que abre, O que fecha, Paraíso Terra Inferno, CineStrong.

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