O Sesc Belenzinho reabriu em São Paulo.
Todo reformado ele conta com uma área de lazer bem ampla e uma área para exposições não tão generosa, mas enfim, sempre importante novos lugares.Esse mês está lá uma Exposição de Arte Póvera e uma instalação linda do artista paulistano Caio Reisewitz, que eu assino a curadoria.


Aproveitando que São Paulo está um sonho de tranquilidade, vale a pena o passeio para explorar novos “mundos”. O jeito mais fácil de chegar lá é de metrô. Pega a linha vermelha (eu peguei no Anhangabaú), desce na estação Belém e de lá dá tranquilo para ir a pé.
O Sesc oferece um restaurante bem honesto (fecha as 15:00) e o programa é legal para a família toda.
Abaixo o meu texto sobre o trabalho mas o bom é (sempre) ver as coisas ao vivo! Entra no site do Sesc para informações e serviço.
Ituporanga
A trajetória de um artista é construída por suas inúmeras escolhas. São decisões estéticas, conceituais, políticas, formais, que determinam uma produção artística coesa. No conjunto que forma uma obra, identificam-se símbolos e características específicas, que simultaneamente se alinhavam pela poética e se demonstram autônomos em sua singularidade.
Há momentos, porém, em que o acaso entra em ação cumprindo sua melhor função: a de oferecer algo de inesperado, não calculado. Na maravilha do imprevisto, o artista depara-se com novas possibilidades, e é assim convocado a desafiar seu próprio meio, tendo a chance de explorar territórios desconhecidos.
Foi dessa forma que se deu a concepção da instalação Ituporanga. Sem ideia preconcebida, em visita à área dedicada a exposições (onde se vê agora o filme-áudio), o artista depara-se com uma gigantesca parede de vidro fosco. Uma enorme abertura para a luz. Há outro vidro, por onde se caminha e se enxerga abaixo a piscina azul. Algo de vertiginoso nos atravessa.
Como poderia um artista que lida constantemente em suas fotografias com a noção de paisagem, com a percepção de escala, com a composição pictórica (extremamente cautelosa), ignorar tal arquitetura/oportunidade?
Não são essas as primeiras cachoeiras de Caio Reisewitz. Esse tema está presente em muitos de seus trabalhos anteriores; entretanto, suas belas cachoeiras impressas em papel fotográfico deram aqui lugar para outras duas: uma inventada pelo artista, vista em sua transparência, foi aplicada nos 78 pequenos quadrados que formam a monumental janela do SESC Belenzinho, produzindo um efeitoback-light e expandindo a imagem para um campo escultórico; outra, em pequena escala, é vista em um filme com áudio em que a imagem parece parada, mas o movimento é constante. Sim, Ituporanga é um experimento de ocupação espacial utilizando mídias nunca antes navegadas pelo artista.
Em meio a essas decisões, a história do local foi se revelando através da pesquisa realizada pelo artista, acrescentando mais uma camada de sentido. Essa região foi, um dia, habitada por índios, a tribo dos Guaianases. Por ser uma área conhecida pela altitude no passado, possuía vários afluentes, nascentes e cachoeiras, que desembocavam no rio, hoje conhecido como Tamanduateí. Há ainda no bairro uma rua com nome Juatindiba (no local onde se encontrava essa cachoeira) e outra, com nome quase poético de Rua Cachoeira.
Um fato curioso. Na escolha do nome do trabalho, elemento integrante e determinante de um trabalho de arte, a escala estava em jogo. Ora, por que não dividir então a dimensão das imagens micro e macro e alcançar assim um número que as representasse?
Mais uma vez, a despretensão abriu espaço para a poética. O resultado foi exato: um para mil. Foi preciso três ou quatro recálculos para acreditar naquele número tão maravilhosamente exato. Uma instalação um para mil.
Mas foi Mogli quem inspirou Reisewitz a inventar suas cachoeiras fictícias; um símbolo numérico seria demasiado cartesiano para descrever o universo do menino lobo.
Mesmo assim, ao contemplar as cachoeiras de Ituporanga, que significa, em tupi, bela cachoeira, uma literalmente desaguando na piscina, a outra na sua reclusão escura, algo nos apazigua os sentidos, remetendo a sensações sublimes como se estivéssemos, de fato, envoltos por esse repositório que o homem denominou Natureza.