Quando a turma brasileira que vive em Nova York se reúne todo dia, o assunto muitas vezes acaba sendo “morar fora”. Neste mês faz exatamente quatro anos que cheguei aqui, por isso resolvi fazer um post homenagem ao tema… e dividir com vocês algumas frases, informações e historinhas sobre essa vida dupla.
Depois de muito filosofar em mesas de bar, uma das coisas que aprendi (sem muitos fundamentos acadêmicos, me desculpem) é que a nossa pátria é como nossa mãe. Podemos mudar de nome, de cor de cabelo, de marido… Mas o lugar onde nascemos sempre será o mesmo, assim como nossa mãe sempre será nossa mãe, mesmo que a gente fuja de casa! Adoro essa analogia poética.
Entre as frases que mais amo estão:
“Morar no Brasil é uma merda, mas é bom. Morar fora é bom, mas é uma merda” (discute-se a autoria dessa citação, muitas vezes atribuída a Tom Jobim)
“America is my country, but Paris is my hometown”, em tradução livre “América é o mau país, mas Paris é a minha cidade” (Gertrude Stein) Dá muito bem para fazer o equivalente com o Brasil e a cidade onde você mora. Dá uma calma de espírito pensar assim…!
“Home is where your dog is”, em tradução livre “Lar é o lugar onde ‘mora’ o seu cachorro” (de autor desconhecido)
Muita gente diz (e é um pouco verdade) que quanto mais tempo você passa longe do seu país de origem, mais você se torna um cidadão de lugar nenhum. Perde aquela identidade sólida característica do lugar onde você nasceu e não incorpora totalmente a cultura do lugar onde você mora.
Logo que cheguei aqui, ainda um pouco perdida, conversei com uma tia minha que viveu em várias cidades do mundo, Nova York entre elas (hoje ela está no Rio). E perguntei a ela “Tina, qual o lugar onde você mais gostou de morar?” E ela respondeu: “Sempre gosto mais do lugar onde estou”. Na época achei a frase bonita e tal, mas só hoje entendo o que ela quis dizer e acredito que pensar assim é um dos segredos para ser feliz morando longe do lugar onde nascemos/crescemos…
Outra análise interessante foi a que o Guga Chacra fez num email que mandou aos melhores amigos no começo do ano. Veja um trecho:
“Um dia talvez eu sinta falta de não ter passado o réveillon de 2010 para 2011 com a minha família. É o terceiro ano seguido que passo longe. Em Nova York. Mais uma vez. Ano passado, também. Em 2008, estava em Jerusalém. Mas aprendo. Sou uma pessoa que mora fora. Nós que moramos fora aprendemos que a saudade se torna tão rotineira que penetra na nossa personalidade.
Vivemos em um passado. A São Paulo de nós que moramos fora se congelou no dia que demos adeus a quem gostamos no aeroporto de Cumbica. Voltamos para visitar. Uma, duas, três vezes por ano. Até quatro. Mas não adianta. São Paulo continua na nossa memória que se fosse aquela de quando partimos.
Eu vim em agosto de 2005. Veio 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e agora 2011. Entro no meu sétimo ano morando fora. Namorei, morei junto e terminei noivado. Conheci algumas das pessoas mais importantes da minha vida. Sem querer, me afastei de outras que foram muito importantes no passado. Elas são da minha São Paulo congelada, de 2005.
Ao mesmo tempo, para as pessoas de São Paulo, eu também congelei. Ainda sou o Guga de 2005. Verdade, quando vou ao Brasil, todos me perguntam das viagens. Guerra em Gaza, Terremoto no Haiti, Golpe em Honduras. Andar nas ruas de Beirute, de Porto Príncipe. Jantar em Damasco ou Sanaã. Mas, no fundo, todos ainda me consideram aquele menino dos Jardins, do Paulistano, do Pólo, do Litoral Norte. Ou eu acho que eles me enxergam assim. Afinal, foi desta forma que me congelei quando deixei o Brasil.
O estranho de morar fora é isso. São Paulo congelou no tempo, e eu amadureci em Nova York. Ao mesmo tempo, a São Paulo de vocês evoluiu no tempo e eu congelei em Nova York. Seis anos fora, sem falar outras vezes em que vivi na Carolina do Sul, Boston e Buenos Aires me tornaram uma pessoa diferente. Tive traumas e experiências que me afetaram para sempre. Nunca serei o mesmo depois do Haiti. Começa a chegar a um ano do terremoto e aquelas cenas não saem da minha cabeça.”







